Paciência, confiança e dinheiro

Paciência é uma virtude … não, não é.

Uma simples busca na internet dá tantos motivos para se orgulhar quanto para ter medo de ser paciente. Tolstoy escreveu: “os dois guerreiros mais poderosos são a paciência e o tempo”, apenas com paciência podemos conquistar o tempo. Mas o tempo parece estar vencendo, e muitos gurus da administração não têm nenhum problema em explicar os “riscos” de ser paciente: “liderança é sobre ação”, falam eles. Seja como manifestação de crenças arraigadas ou como uma consequência de más técnicas de autogerenciamento, vivemos em tempos que parecem governados pela impaciência.

Os seguintes parágrafos oferecem uma reflexão sobre a relação entre a paciência, a confiança e as nossas decisões financeiras. Nossas decisões financeiras envolvem confiança, seja por acreditar que um investimento vai dar certo no futuro, ou para honrar a confiança que é depositada em nós na hora que pedimos um empréstimo. Por sua parte, a confiança está intimamente ligada com a paciência. Entender da relação entre confiança e paciência, permite refletir quanto aos determinantes de nossas decisões de dinheiro, e nos oferece alternativas para melhorá-las.

CONFIANÇA E PACIÊNCIA

Investir nosso dinheiro ou obter um empréstimo são em essência processos que nascem da confiança. Investir implica deixar de consumir hoje com a expectativa de ter mais amanhã, o que constitui um desafio para nossa natureza calculista e racional. Um presente certo, por um futuro nem tanto. Por sua parte, pedir um empréstimo para disfrutar hoje e pagar amanhã não é um desafio mais simples, terei no futuro o dinheiro para devolver?

As ciências comportamentais olham para a confiança como um comportamento. Ao fazer isso, o foco é colocado no contexto que envolve esses comportamentos e reconhecemos que a decisão de confiar ou a decisão de honrar a confiança serão resultado tanto de nossas profundas cognições internas como de um contexto que nos condiciona.

O contexto influi na confiança em muitos níveis simultaneamente, mas provavelmente um dos canais mais determinantes é via o impacto na paciência. As ciências comportamentais estudam a paciência a través da categoria “viés presente”, a condição pela qual tendemos a ficar mais ansiosos quando atrasamos uma recompensa hoje do que quando fazemos o mesmo no futuro. O “viés presente” é evidenciado através de opções do estilo: “você prefere um chocolate hoje ou dois amanhã” versus “você prefere um chocolate dentro de uma semana ou dois dentro de uma semana e um dia”. Mesmo sendo somente um dia o necessário para duplicar o consumo, quando a decisão é colocada no presente, as pessoas são muito mais propensas a não aguardar.

Desdobramentos

Reembolsar uma dívida implica em sacrificar consumo futuro. Decidir contratar uma dívida, “renunciar a uma gratificação futura” para “honrar o pagamento de uma dívida” parece algo simples de fazer. Mas quando o momento é agora, aquela decisão tão simples já não é clara. Pessoas que têm menos paciência e preferências de tempo enviesadas podem superestimar a sua capacidade de pagamento.

As preferências de tempo também estão relacionadas à confiança na hora de investir. Investir significa deixar algo de lado hoje com mecanismos limitados de imposição para recuperá-lo. Indivíduos impacientes superestimam o peso da perda hoje, e por tanto demandam um prêmio mais forte no futuro. O custo de oportunidade será maior para aqueles com maior viés presente.

Experimentalmente é possível verificar essas relações. Uma pesquisa realizada entre 120 millennials clientes de uma empresa financeira no Uruguai e que tinham créditos ativos no sistema financeiro, evidenciou que as pessoas com viés do presente eram menos “confiáveis”, tinham mais probabilidade de apresentar atrasos nos seus pagamentos. Também esses indivíduos tinham mais problemas na hora de confiar em outras pessoas.


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ENTORNOS QUE AJUDAM

A evidência que vincula as preferências temporais com comportamentos de confiança, abre a porta para um novo conjunto de ferramentas para ajudar as pessoas a avaliar melhor as suas decisões financeiras. Entornos que têm influência sobre a paciência, o terão também sobre as decisões de investimento e endividamento.

“Leve agora e pague amanhã” dá na essência da natureza do impaciente: na ponta do seu smartphone todo millennial tem sempre disponíveis soluções que implicam todo o bônus agora e todo o ônus amanhã. Muitas vezes esses entornos ajudam a decidir rápida e simplesmente sobre coisas que vão ser boas. Mas nem tudo é para ser decidido assim. Em algumas situações, devagar é melhor.

Os contextos decisórios virtuais têm inúmeras vantagens, mas também envolvem uma arquitetura de escolhas que pode fomentar o viés presente e piorar as decisões.

Mas é possível aproveitar esse contexto decisório e inserir estímulos que permitam compensar o efeito do “viés presente”. Alguns exemplos:

  1. Reconciliar “eu presente” e “eu futuro”: técnicas que nos ajudem a nos visualizarmos no futuro facilitam a identificar que irremediavelmente vai ser nosso “eu futuro” quem terá o ônus das decisões que toma nosso “eu presente”;
  2. Pontos de decisão e normas: criar instâncias no processo decisório que podemos verificar se as decisões que tomamos são adequadas apresentando comparações com decisões de outras pessoas similares a nós;
  3. Valores e experiências: Traduzir os juros em experiências ou desejos e fomentar a associação com situações familiares ajuda a interpretar melhor as consequências das decisões;
  4. Risco, incerteza e volatilidade: financeiramente são conceitos claros e definidos, mas para as pessoas geralmente é traduzido em uma só coisa: probabilidade de um sucesso negativo. Ajudar as pessoas a entender das probabilidades com exemplos concretos permite avaliar melhor os resultados.

Conclusão 

Informar e fomentar a educação financeira é um dever de todos que oferecem produtos financeiros. Mas as más escolhas não são somente produto da ignorância. Vieses cognitivos provocados por respostas automáticas a estímulos de contexto habitualmente tomam controle de nossas decisões piorando-as.

Se como investidores, como devedores ou como agentes que oferecemos produtos e serviços financeiros, reconhecemos o papel das preferências de tempo nelas, podemos procurar por contextos decisórios que influenciam positivamente nas decisões financeiras. É possível desenhar uma arquitetura de escolha que cuide a ativação do “viés presente” e provoque condutas com mais confiança.

Escrito por Gabriel Inchausti Blixen
Professor na ESPM e Consultor associado na Inbehavior Lab

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